Wolkices

Ah, a Páscoa…

Fonte

Deixe-me contar uma historinha pessoal para vocês.

Quando eu era criança, a Páscoa era uma data muito estimada, até mais do que o Natal. Não posso reclamar de que eu não recebia ovos de chocolate, até porque era o único momento do ano em que eu ganhava algo que eu queria. Era sempre o maior ovo que eu pudesse encontrar no mercado local, geralmente dado pela minha avó materna ou pela minha mãe.

Ganhar o tal ovo me fazia sentir um misto de felicidade, excitação, ansiedade e medo, já que minha mãe me vigiava para não abrir os ovos até o domingo de Páscoa, a não ser se ela decidisse abrir antes. Na minha cabeça, era uma espécie de tradição.

Até uns seis anos de idade, minha mãe fazia pegadinhas de coelho de café no chão, que terminavam onde ela havia escondido o(s) ovo(s).  Toda manhã de Páscoa, eu acordava elétrica, sedenta. Era divertido procurar, mesmo que ela escondesse sempre nos mesmos lugares e eu tendo convivido com ele(s) em cima da geladeira por uma semana ou duas.

Minha inocência infantil me levava a achar curioso o fato do coelho deixar pegadas de café, me perguntar como que ele se meteu no pote de café da bruxa da minha avó paterna, e porque minha mãe sempre aparecia com as mãos sujas de marrom naquele dia. Como um ser tão pequeno conseguia carregar um ovo tão grande e pesado, eu queria mesmo saber.

Depois que descobri que era ela quem deixava as pegadas, mantive o mesmo entusiasmo. Mesmo achando os ovos, me fazia de confusa para continuar a brincar de “quente-frio”. Acho que ela ficava feliz em fazer parte desse ritual, e é uma das lembranças mais bacanas que tenho desse tempo. Fazia com os outros dias fossem mais leves.

A base que fui crescendo, coisas foram mudando. A Páscoa deixou de ser caça aos ovos. Já não tinha mais essa de pegadinha de café. Fui criada em uma família católica, e na catequese havia a contagem regressiva para a data. Ler para toda a igreja durante a missa da Páscoa era muita honra. Já na escolinha, eu era escalada na missa das crianças para ler no microfone pelo grupo de oração. Diziam que eu tinha a “voz forte”. A verdade é que eu sempre lia a bíblia em voz alta para toda a turma, e o fundamental, não me importava nem um pouco com aquela multidão, muito menos em falar ao microfone.

Acordávamos cedo com destino à missa, para louvarmos a Ressurreição de Jesus. Todos ficavam muito emocionados, chegavam a chorar. Havia grande carga emocional envolvida. Era interessante como todos se amavam durante a festa, se abraçavam, desejavam o melhor. E minutos depois estavam falando de atributos uns dos outros pelas costas, esquecendo-se completamente do propósito da comemoração. Humanos sendo humanos, sempre.

Mas eu, como criança, ficava alucinada com tudo. Eu não ligava se diziam que meu vestido verde-da-cor-daquela-canetinha-da-Compactor-que-ninguém-usava era inapropriado para a festa de Páscoa.

Quando somos crianças não temos noção do capitalismo e tudo mais, só reproduzimos aquilo que nos é ensinado, mas eu tinha noção que muitas crianças não ganhariam ovos naquela data. E eu, em minha inocência de criança, pedia para Ele poder cuidar delas e trazer a mesma felicidade que eu estava sentindo, já que não acreditava mais no Coelho da Páscoa e sabia que minha mãe e minha avó não podiam comprar ovos e pelúcias para todas as crianças carentes do mundo.

Chegava em casa primeiro que todo mundo, mas como não tinha chave, corria a toa. Ao entrar, abria os ovos com toda a velocidade que eu possuía e até mais. Esse que era o grande barato para mim, abri-los. Nem precisava ser meu, a alegria era a mesma, mesmo sabendo o que tinha dentro. Eu queria fazer engenharia reversa, mesmo antes de saber o que era isso. Eu os devorava com uma satisfação tão grande, parecia que minha vida dependia daquilo.

E de lá íamos para a casa da minha avó materna. Almoçávamos com ela, com minha madrinha e um infinito de gente. De brinde tinha de aturar alguns primos pedantes, daqueles que deferiam comentários ácidos de favoritismo por não terem recebido o maior ovo da vó de presente, e ainda tinham esperança de ganhar os dos outros.  Mas estava tudo em casa, o desvio de caráter deles não era forte o suficiente para estragar tudo, mesmo que chorassem.

O tempo foi passando, pessoas foram partindo. Minha madrinha deixou essa terra e décadas depois, minha avó também. E junto com ela muitas das tradições que uniam a família se foram também. Inclusive a Páscoa. Não mais a animação de plásticos se abrindo, papel laminado sendo amassado, desejos de futuro melhor, agradecimento por estarmos vivos, abraços emocionados, almoço pra cento e cinquenta pessoas, a felicidade genuína e não capitalista do que representava essa data. Nada. Só o vazio de um individualismo, forçado ou não, levando em conta que vivemos em tempos perigosos que afastam famílias. Um vazio causado pela ausência de um elo que fazia questão dessa união e só desistiu quando se rompeu.

E tudo isso virou lembrança.

Aprendi que chega um momento na nossa vida em que podemos comprar nossos próprios chocolates. De que iremos ajoelhar e fazer preces por conta própria. Algo sempre estará faltando. Iremos desejar coisas boas e proteção para sua família, amigos, pessoas com quem nos importamos. Muitas vezes sem nem ter voz, calor ou entusiasmo. E esse vazio pode vir a crescer, a base que perdemos quem amamos ou com a lembrança de tempos com pessoas que jamais voltarão. Como que se a cada ano tivesse menos significado, mesmo que arrumemos nosso próprio, mesmo quando estamos construindo nossa própria família. Sempre teremos algo que jamais será superado. E é como se uma parte boa da nossa vida fosse tirada a força da forma mais dolorosa possível, sempre, nessas datas.

E assim, vamos seguindo.

Talvez seja essa a reflexão que Ele queria ensinar. De não desperdiçar nossos valiosos dias como sempre fazemos. De fazer valer a pena, tudo, sempre. Do fim e do começo, e vice versa. Talvez esse seja o real significado de morrer e renascer. De morrer e renascer todos os dias, até o dia que não mais será possível voltar. De virarmos lembranças.

Artigos relacionados

coment
  • Marianna Costa
    13 de abril de 2015 at 13:55

    Que bonita sua reflexão. Eu lembro de quando pequena também ter essa brincadeira da caça ao ovo e como também fazia catequese tinha todo um momento pra refletir o que a data representava.
    A gente cresce e a magia vai se perdendo junto, infelizmente. Eu tento manter o máximo da felicidade e simplicidade que tinha a infância, às vezes tendendo pro consumismo, mas ninguém é perfeito xD
    Se cada um fizer valer a pena os dias, as datas, a família teremos sempre lembranças agradáveis pra levar mesmo quando o tempo passar e as pessoas forem indo em bora…
    Filosofei aqui também kkk”
    Maricando

    Beejão!