Wolkices Cotidiano

Andei Aprendendo: Carreira e Conhecimento

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Se existe algo que ainda não fiz nesse blog é escrever sobre minha vida acadêmica, profissional idem. Interessante porque sou uma pessoa que costuma compartilhar vivência e aprendizado, mas só agora, depois de quase cinco anos que criei esse blog, me dei conta disso.

Hoje falarei sobre a minha relação com o conhecimento e sobre os passos que tenho dado em direção a minha carreira.

Começarei na infância, tempo em que enquanto eu lia quadrinhos da Mônica, me interessava por livros de Astronomia, Ciências, Grandes Invenções, “Por Dentro das Máquinas” ou rótulos de shampoo com nomes engraçados na parte de composição química. Era adepta da autodidática, interessada em saber como as coisas funcionavam e como se mantinham em sua forma final. O que tinha lá dentro, quando começou, como foi se adaptando. Não importava o que era, eu queria aprender, perguntar, expandir meus horizontes, criar coisas. Eu queria fazer algo grandioso e contribuir para que crianças lessem livros como aqueles no futuro e ficassem tão deslumbradas como eu (não tinha a internet naquela época). Também sempre fui uma criança muito criativa, inquieta e curiosa.

Eu pensava que o ser humano poderia ser o que ele quisesse. Poderia ser médica, advogada e se desejasse, artesã. Não existia uma cartilha dizendo que só se pode ser uma coisa e que é necessário exercer todas as carreiras ao mesmo tempo. Era só estar vivo e ter força de vontade. Ainda penso assim, mas adiciono os recursos na equação. Tanto que já cansei de ver jornalistas fazendo direito, psicólogos seguindo gestão e arquitetos que também querem ser formados em gastronomia.

Já tentei algumas coisas ao longo da vida. Cursei Administração e achei muito chato, Desenho Industrial, um curso caríssimo, e escutei que era difícil se sustentar como designer no Brasil na época e continua sendo até hoje. Direito, que eu amava e me saía muito bem no que era proposto (como debates ou situações de conflito). Saí porque nós, alunos, tivemos que fechar a via principal do bairro pedindo pra instituição pagar os milhões que estava devendo para os funcionários e professores, e pra completar ela era alvo de uma CPI. Fui parar no técnico em Edificações por gostar de engenharia civil, de projetos, orçamentos. Escolhi também por ser rentável, na expectativa de conseguir um emprego melhor que me permitisse concluir o tal curso de Direito, mas meus planos mudaram. Não me arrependo de nenhuma decisão tomada. Só que hoje não tenho mais saco para graduação de longos anos, mas parar de estudar é algo que está fora de cogitação.  A vida tem dessas, não é mesmo?

Descobri no técnico que gostava de verdade da parte de planejamento estratégico e foquei em me especializar em gerenciamento de projetos. Direito não foi deletado da minha ficha, mas guardado na gaveta. Um sonho de cada vez. Optei por fazer uma graduação tecnológica. Embora os meus planos finais sejam bem distintos dos meus colegas de classe, que buscam a carreira financeira, estou aprendendo muita coisa que tem complementado o técnico. Entrei lá porque fazer Construção Civil (que por sinal foi extinto na instituição) era redundante e tem matérias focadas no que quero me especializar na pós-graduação. Mas não impediu que eu acabasse abrindo o coração para tudo o que aprendo por lá, inclusive como pessoa.

Na faculdade aprendo bastante sobre liderança, negociação e também sobre análise dos cenários, como por exemplo considerar onde estamos e que existe uma linha tênue entre o que temos hoje prosperar ou não amanhã. De saber multiplicar seus recursos, palpáveis ou não. Estamos sempre evoluindo. Ou pelo menos deveríamos.

Longo caminho, não? Enfia também um casamento no meio.

E então eu decidi que queria trabalhar em uma empresa de engenharia. Coloquei currículos e mais currículos. O mercado ficou uma droga, muitas pessoas em torno de mim ficaram desempregadas. Decidi procurar também estágio. Me chamaram até para trabalhar em um museu cuidando dos projetos das galerias. Abri mão. Eu queria adquirir experiência no que eu estudei, que é edificações, e isso só seria possível em uma empresa de engenharia. Mas não é isso que tem me feito pensar tanto, pois sei que a vida reserva surpresas.

Você sobe a ladeira, se rala, mas muitas vezes nada disso é levado em conta. Eu sempre vi essa coisa de “humanas x exatas” e nunca me incomodou. O interessante é que mesmo tendo tido toda essa caminhada, volte e meia escuto que eu deveria ter seguido alguma coisa relacionada a área de humanas, ou com foco em arte, devido aos pré-conceitos relacionados ao perfil para o mercado, como por exemplo o que estamos falando, de engenharia. Que eu deveria fazer algo que pudesse utilizar a minha criatividade, tal qual inata, como se em ambas as carreiras eu não pudesse fazer isso. Queria fazer algumas considerações bastante pontuais sobre o assunto:

  1. Uma pessoa criativa não só desenha, escreve ou pinta, ela também se expressa e externaliza de diversas outras formas. As pessoas subestimam muito essa questão de ser criativo, como se só pudesse ser aplicado para o ramo artístico. Ledo engano, um  profissional criativo pode trazer soluções para qualquer área que decida seguir, pois pensar fora da caixa te abre um leque de oportunidades que a grande maioria não consegue enxergar.
  2. O que pode trazer bloqueios é o direcionamento incorreto de seus superiores caso não saibam como utilizar essas aptidões em prol da empresa. Logo não vejo sentido limar algo que é diferente de maneira positiva ao invés de guiá-lo e fazer dele um diferencial, só porque a tradição diz que sempre foi assim e é assim que vai se manter. É um pensamento retrógrado, engessado e comodista. Já pensaram nisso?

Vivemos uma transição entre uma geração que foi obrigada a seguir algo imposto (como por exemplo, um pai dizer que um filho só pode ser médico, advogado ou engenheiro, carreiras tradicionais que antes eram sinônimo e garantia de estabilidade e sucesso, quando seu sonho era ser vendedor de rosquinhas) e uma que quer ser bem sucedida sim, mas feliz, mesmo demorando bastante para descobrir qual é a fonte de sua felicidade ao mesmo tempo que tem de lidar com as adversidades impostas pelo mercado, como no caso do Brasil hoje, na crise.

E mesmo assim escutamos a reprodução dos outros sobre falhas, frustrações, do “faça o que você ama” desconsiderando qualquer plano que você tenha projetado para si ou que você não ama aquilo, como se estivessem dentro do seu coração, de uma outra época, de outro cenário, em uma outra realidade. Às vezes soa como desmerecimento à qualquer esforço, desgaste, investimento feitos. Compartilhar experiências é bom sim, mas afirmar que o outro falhará sem ele nem ter tentado, não. Estamos nesse mundo para aprender, com tudo e com todos, mas a visão que temos desse aprendizado é única. Não podemos impor ao outro ser e gostar do que somos e do que gostamos, igualmente intervir em seus planos e sonhos. Podemos levar em consideração conselhos sim, mas não podemos viver nossa vida baseando-se na experiência alheia. Cada um sabe o que é bom para si, mesmo quando essas falas vem dos nossos pais ou pessoas que foram referência na juventude. Você só vai aprender vivendo, não importa o quanto imponham algo a você.

Falando de esforço, aprender no Brasil não é fácil. É caro, o retorno nos dias de hoje é incerto e exige um deslocamento que nem sempre nossa saúde é capaz de aguentar. A educação chegou a um ponto que, independente do setor ser público ou privado, ou é sucateamento ou comercialização do ensino. Ensino esse que não contempla a todos, mesmo que de forma precária, pois a grande maioria sequer tem o pão de cada dia, o que dirá livros, e vivem em situação de subsistência. E com a educação é possível sair de uma situação difícil, com muito suor e sangue. É algo que não vou me aprofundar, pois se trata de uma discussão que transcende o calor de nossos umbigos quentinhos. Requer leitura, estudo, sociologia política e desconstrução.

Por isso, não devemos nos basear em poucas informações, achismos, pre-julgamentos e principalmente em micro-experiências pessoais, e acabar desconsiderando os percalços que aquela pessoa passou para estar ali. Dizer que teve uma vida fácil. Ela é que tem que saber. Podemos inclusive subestimar sua capacidade, o que é muito sério e pode trazer complicações irreversíveis.

Subestimar alguém jamais trará algo bom, menos ainda para a pessoa a qual estamos nos dirigindo. Podemos fazer isso conscientemente ou não, o que não nos tira a obrigação de nos policiarmos, inclusive por meio de inocentes brincadeiras para descontrair, desestressar. Palavras tem o impacto de um soco, ou pior. A mudança tem de partir de nós, primeiramente. Tudo depende dos valores de cada um. Ao subestimarmos o outro, estamos diminuindo não só ao próximo, mas a nós mesmos. Nossas palavras podem deixar cicatrizes tão profundas e vir a machucar tanto, que podem levar alguém a desistir da própria vida, literalmente. Temos tantos exemplos mais amenos, mas não menos cruéis: pessoas que necessitam de apoio profissional para superar traumas que perduram anos por conta de comentários infelizes. Pessoas que tiveram sequelas físicas por humilhação de terceiros. Pensa bem.

Apanhamos todos os dias, moralmente, e alguns de forma física. Sabemos a dor. Por que contribuir? O que ganhamos desconsiderando a vivência do outro, suas cicatrizes, desrespeitando seu suor? Não sabemos 100% de sua história, de seus ferimentos ou gatilhos. Não estávamos lá. O mundo ser cruel não é desculpa pra se reproduzir aquilo que se abomina e nem seguir o oposto do que se prega. É preciso se colocar no lugar do outro. Isso se chama empatia, é bom exercitar quando não se tenha de fábrica.

Todos temos dons, temos dádivas e aprendendo a usar os meus, me tornei uma pessoa positiva. Ser positivo não significa ser fraco, muito pelo contrário. A vida endurece a gente, mas se tornar ruim porque o mundo foi conosco é uma escolha. Não seremos engolidos por sermos verdadeiros, autênticos, só se nos permitirmos, nos envenenaremos se assim quisermos. Não significa ser alienado e nem que não se é realista. É motivar o outro, desejar que ele possa ser melhor, ter uma vida melhor. É esgotar todas as possibilidades e saber com propriedade e sem passar qualquer detalhe, que tudo o que poderia ter sido feito, foi feito. Agora podemos ir.

Por isso que eu jamais direi para alguém que ele é incapaz de algo, por mais difícil que seja. Compará-lo com outra pessoa ou diminuir o seu valor. Jamais direi a alguém que ela não é apta sem nem dar a ela a chance de tentar. Não sou injusta, mesmo que o cenário exija isso. Eu falarei a verdade, mas só quando eu tiver a plena certeza que tudo foi feito. Também não me favorecerei em cima de ninguém, não negarei ajuda. Se eu puder, eu ajudarei a atravessar o caminho. Será uma experiência para ela, e para mim. Independente de cargo, somos todos humanos. O que é hoje, amanhã pode não ser. Não devemos nos colocar em pedestais. O maior erro do ser humano é a vaidade. Ter orgulho de suas conquistas não é pretexto para alimentar vaidades, afinal, quando se chega ao topo devemos nos preocupar com a manutenção da subida, ou então desmoronaremos, sozinhos. E o que vamos levar disso?

Se nada der certo, continuarei tentando. Mas com a consciência tranquila. Pois eu me tornarei diferente de quando eu entrei. Eu aprendo sempre, em cada segundo. Eu pegarei tudo para somar na minha planilha pessoal do grande aprendizado que é a vida. E é assim que meu projeto se tornará uma casa, um quarteirão, um bairro, uma cidade, um país, um continente. E por fim, um mundo, o meu mundo. Com todas as minhas lembranças, sucessos, insucessos e pessoas que já passaram por ele. Muitos perdem a chance de deixar sua marca nessa vida, talvez por medo, talvez por achar que nada pode mudar, ou por falta de oportunidade. E para deixar a marca nesse mundo aqui, que é coletivo, meu e seu, não vou abrir mão de que seja por algo positivo.

Eu sou criativa, positiva, curiosa, aprendendo a não absorver as energias, começando uma carreira no que venho estudando, não pisando no próximo, passando por uma crise no país onde eu resido, tendo humildade em ver os colegas muito mais capacitados do que eu sem emprego, desejando que todos possamos encontrar uma solução pra isso, e quando deito a cabeça no meu travesseiro, minha consciência está tranquila. Não sinto qualquer vergonha do que sou, do que passei e do que irei passar, pois sei que estou no caminho certo.

E se eu disser que eu nunca irei me render?

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