Wolkices Crônicas

Contos perdidos da Tia Wolka: Xuxinhas

xuxinhas

Voltemos aos anos 80/90, quase um passado distante, no qual eu já demonstrava vocação para perder minhas xuxinhas. Começou de maneira consciente e se tornou tão natural que saiu do controle. Hoje me enlouquece de maneira tão irritante quando unha arranhando quadro negro.

Quando eu era pequena, minha mãe fazia (com a melhor intenção materna do mundo, acredito nisso) aqueles penteados estilo abacaxi no meu cabelo. Ela fazia o padrão das outras mães de menininhas que todas as manhãs concebiam aquele penteado no topo da cabeça horroroso, quase arrancando o couro fora.  Eu odiava aquilo tudo, afinal era para ir para a escola pagar mico. Como ela prendia muito forte, eu só conseguia tirar depois do recreio, com muito esforço e dedicação. Eu corria, pulava, fazia o que desse para me livrar daquela arte. As xuxinhas raramente voltavam para casa e minha mãe, obviamente, ficava louca da vida.

Atrapalhando meu plano maligno, a professora quando achava alguma perdida pela escola, devolvia para minha mãe. Ela achava até no lixo. Eu tive que pensar em maneiras de me livrar do corpo sem ser pega. Quando criança eu pensava que ela era uma vaca, não a palavra e sim a atitude. Ela queria ajudar, como fazia com todos os alunos. Mas na minha cabeça de “pequena filha do Coringa”, ela estava se metendo na minha felicidade e eu maquinava maneiras de me vingar dela. E me vinguei mesmo. Coisa feia, mordi a coitada da professora quando ela brigou comigo em aula e apontou o dedo para mim. Naquela época senti orgulho, me senti vingada. Ela nunca mais deu mole de chamar minha atenção fora de uma distância segura. Se eu a encontrasse hoje, pediria milhões de desculpas. Se ela não for viva, me sinto pior ainda.

Não sei se minha mãe lembra de um só dia escolar que meu cabelo tenha voltado intacto. Eu odiava mesmo o abacaxi. Por que não um estilo rabo de cavalo, trança, Maria Chiquinha? Tinha que ser o maldito abacaxi que a Xuxa pregou como moda e frustrou crianças do país inteiro. E pior, há mães que fazem essa crueldade até os dias de hoje.

Os anos passaram e encontrei uma saída para aquilo. Marotinha, com meus cinco ou seis anos, virei adepta do corte chanelzinho de criança que hoje podemos chamar de “Suri Cruise style”.  Eu adorava cortar o cabelo porque sabia que aquele corte não permitia abacaxis em minha cabeça. Era bem prático, ainda mais porque meu cabelo era bem lisão escorrido.

Minhas coleguinhas sempre me julgavam de ter cabelo curtinho. Diziam que era de menino e como eu era praticamente um mesmo, eu mordia seus braços e ia brincar de garrafão com a molecada. Quando mordia com gosto, ficava de castigo. Se fosse hoje provavelmente meus pais teriam sido processados por lesão corporal.

Vinguei-me quando a moda “tererê” veio para ficar e meu cabelo não segurava aquelas miçangas nem com cola. Eu caçoava delas, dizendo que pareciam mini árvores de Natal ou versões pocket do meu até então personagem preferido, Predador.

Crianças podem ser cruéis. Eu era terrível, ninguém me segurava.

Os adultos eram o oposto, adoravam, diziam que eu era moderninha.  Não sei qual o sentido, mas eu curtia quando os adultos usavam adjetivos como “mocinha”, “moderninha” ou “estilosa” ao se referir a mim. Eu me sentia reconhecida.

Mantive o estilo até os doze anos, quando comecei a deixar crescer. Minha mãe não mandava mais no meu cabelo e aos treze pintei pela primeira vez. Mas isso é assunto para outro post.

Nesse mesmo ano minha irmã nasceu. Com ela, um infinito de coisas fofas para o cabelo. Só que bebês crescem, começam a falar, criam vaidade e o conflito começa. Nós três vivíamos caçando piranhas, xuxinhas e até elástico de dinheiro pela casa para prender os cabelos nos dias de calor. Comprava uma hoje e amanhã estava na cabeça de uma das duas. Era tenso.

Minha ansiedade me favoreceu durante algum tempo. Teve uma época em que eu não decidia que estilo adotar. Crescia, cortava, pintava, crescia, cortava. Xuxinhas não eram tão necessárias. Chutava o balde todo tempo, nem eu mesma lembro qual era meu padrão de corte e cor até uns 20, 21 anos.

Quando bati o martelo de ser morena e deixar o cabelo crescer de vez, a busca por elas se tornou intensa. Não importa quanto mais eu compre pois a regra é clara. Precisou, não vai achar.

Sempre necessito delas quando estou em situações de stress ou calor (okay, calor é stress aumentado). Quando fico angustiada, tensa ou algo depende de mim, baixo o santo da Violet Baudelaire, prendo o cabelo e vou à luta.

Quem mora no RJ sabe que o Saara é o mundo das bijus e acessórios por aqui. De vez em quando vou lá, compro um monte de presilhas, tic tac, tiaras. Dessas, as últimas não desaparecem. E o pior de tudo é que hoje não tenho nem a quem culpar.

Essa semana tem sido corrida e chata para mim. Ando estressada com um monte de coisas para resolver, tudo de uma vez e quanto mais eu tento solucionar, mais se complica. Não aguento mais ver técnicos da TV a cabo tentando instalar a porcaria do combo sem sucesso. Gente entrando e saindo daqui de casa. Se não fosse meu marido me animando, meus filhotes fofurando e meus peixes fazendo gracinhas, eu já teria chutado o latão.

E semana corrida é aquela delícia. A roupa que você quer você não acha, o banco te sabota, o lanche demora quando você está quase morta de fome, o calor fica infernal e o salto quebra no meio da avenida. E as xuxinhas saem de férias, o que torna tudo muito agradável misturado ao clima da montanha do terceiro ciclo do inferno.

Ontem passei em uma lojinha próxima da faculdade e comprei um saquinho que apelidei de “Kit Creuza”, com quarenta xuxinhas. Só o benefício em minha vida vale 300 vezes mais do que custaram, graciosos R$ 2,50.

De ontem pra hoje devo ter usado umas dez, mas com o cuidado de guardar no saquinho. Deixei na gaveta do escritório, que é o lugar da casa onde costumo me estressar, estudando ou trabalhando. Espero que demore bastante para sumir. Se sumirem rápido demais, preciso de férias, de massagem ou chocolate.

Além de xuxinhas, perco canetas Bic, meias, bilhete único, micro SD, fones de ouvido (isso realmente me deixa insana), anéis e tento não facilitar na perda de dinheiro, por motivos óbvios. Ah, e a hora de vez em quando.

E você, o que costuma perder?

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coment
  • Mag
    13 de agosto de 2012 at 22:36

    SENSACIONAL o post, amei hahaha
    Eu vivo perdendo minhas xuxinhas (que eu chamo de xuquinhas, sabe-se Deus porquê), então mudei para os grampos de cabelo, que se espalham pela casa toda e eu nunca consigo usar o mesmo mais do que 2x, pois perco também! hahaha Todo mundo que me conhece já sabe dos meus grampos perdidos =p
    E sou danada para perder papéis, dobro e guardo em qualquer lugar e nunca mais eu acho!
    http://www.dicasdamag.uni5.net