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Corpos Presentes de Antony Gormley e uma reflexão

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Há alguns anos atrás, em 2012 para ser exata, a cidade do Rio de Janeiro recebeu a exposição “Corpos Presentes” de Antony Gormley, um dos grandes nomes da arte contemporânea, no Centro Cultural Banco do Brasil. Estive duas vezes por lá, fiquei maravilhada com várias esculturas, detestei outras. Quis morar em uma em especial. Tive muita sensações e achei bem bacana a forma de se expressar do rapaz.

Quando a exposição veio aqui pro Rio, várias esculturas foram colocadas em locais aleatórios do Centro, não só por publicidade, mas também com a intenção de provar um ponto, que o artista era capaz de manter sua presença em sua obra onde quer que ela estivesse. Foram essas palavras que escutei na própria exposição de uma guia e fiquei encantada. Saibam que ele conseguiu e com louvor.

Por mais que fossem só suas réplicas em posições diferentes, elas despertavam carinho em algumas pessoas. Colocavam acessórios, fitas, davam cores e personalidade para as “pessoinhas inanimadas”. Alguns diziam que era de mau gosto. E outros faziam de mictório, o que fazia necessário supervisão policial. Muita gente sequer as enxergavam ali. Ignoravam, não se importavam. Como o de sempre.

Aquelas esculturas mudavam os ânimos. Os meus mudavam. Tornava o centro da cidade menos horrível, sufocante e estressante. Das que deparei, havia uma que era a minha favorita. Eu e aquela pessoinha nos tornamos grandes amigas. Ela ficava no alto de um prédio na Avenida Rio Branco, esquina com a Presidente Vargas. Todos os dias, eu parava no ponto do ônibus e ficava lá conversando telepaticamente com ela. Segundo a mesma, estava ali a trabalho, que consistia em ficar imóvel e esperar o tempo passar. Ela perguntava sobre o meu dia e me dava dicas sobre filmes e o clima da cidade. Ela gostava de coisas variadas, como filmes cult, ficção científica, música turca, répteis e estava se acostumando com o ritmo da cidade, mas não com a chuva, muito menos com temperatura padrão de 50°.

Nos dávamos muito bem, obrigada.

E então, aconteceu.

Eu estava indo para o ponto quando avistei duas pessoas tirando-a do alto do prédio. Me desejou boa sorte e força para continuar vivendo nesse lugar horrível. Disse que se sentia incomodada com tanta ferrugem que acumulou ao longo do tempo parada ali no alto. Sabíamos que era o fim.

Todas se foram. Todas. Nunca mais escutei qualquer coisa sobre elas.

Minha amiga. Fonte.

Não é a minha amiga, mas poderia ser. Fonte.

Recentemente voltei a viver no Centro e a cada dia mais eu detesto aquele lugar. É sempre uma caixinha de desgraças, digo, surpresas. De tempos em tempos, me pego olhando pro alto dos prédios com uma saudade enorme. É uma droga parar para atravessar a rua e não ter ninguém (ou nada) lá em cima, simpaticamente dizendo um oi. Poderiam ter pessoas, muitas delas, mas elas estão muito ocupadas não ignorando o outro.

Essa partida devolveu uma verdade:  esse lugar tem se tornado cada vez mais triste e poucas são as coisas as quais podemos nos apegar.

Para quem teve contato e se envolveu com a obra de Antony, podemos dizer que sentimos coisas boas. Mas o que garante que as mesmas foram concebidas na alegria, no entusiasmo, na leveza, que quando ele criou todas essas réplicas, ele não sentia falta de algo, de alguém ou de si mesmo? Ou que o vazio da ausência não faça parte de algo que ele queira nos ensinar afinal?

Nunca saberemos.

O que temos certeza é que hoje você aqui e no amanhã, desconhecido. Não importa se alguém sentirá sua falta, você irá desaparecer. Mas, se temos tanta consciência disso, até quando nós, seres semelhantes, porém extraordinariamente únicos, nos manteremos invisíveis, revogaremos nossa essência, destrataremos o outro, permitiremos o enferrujar de nossas almas e continuaremos a cronometrar nosso curto tempo em vão?

Não espere para ter algum propósito apenas quando outras pessoas precisarem mover seu corpo inanimado de lugar. Ainda dá tempo de deixar sua marca no mundo.

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